Hoje lembrei-me que escrevia, de vez em quando, sobre objectos que me arrendavam o pensamento. Reparei também, que raramente foste um deles, e isso não se trata de uma falta de reflexão acerca da tua pessoa, até porque, na verdade, há poucos segundos do dia em que não me perco em ti.
O primeiro aspecto é que, a felicidade vive-se, e raramente damos tempo a nós mesmos para escrever sobre ela. O segundo, é sobre o amor, e sobre ele é difícil dizer coisas não ditas. E os clichés, meu amor, não são dignos de nós.
Há palavras, sozinhas ou perto de outras, que contêm em si um simbolismo que só nós compreendemos, que só nós conseguimos descodificar. Quando somos um todo, a linguagem passa a ser inédita e simbólica. Signos como a ilha, esse que usamos diariamente, não deixam de ser uma utopia concretizada, porque no amor há espaço para utopias. Quando digo a palavra "ilha" é difícil não sorrir, ou sentir de imediato uma sensação de conforto e segurança, e também tu conheces o seu sinónimo. Existem mil expressões inventadas por improvisos nos nossos diálogos que vão, também elas, ganhando um lugar no nosso dicionário. Neste dicionário, não existem só palavras ou expressões, existem também sons e melodias, muitas delas criadas por nós, mas também as formas de olhar, que correspondem, todas elas, a um diferente significado, que fomos aprendendo com o tempo, e com a experiência de nos viver-mos pelo todo, e não pela metade.
No dicionário, estão anotados os percursos do teu corpo, que eu tantas vezes percorro, pelas dobras e os sinais, ou pelo cheiro. Conhecemos bem o território um do outro, e neste momento já não precisamos de mapas, se bem que sabe bem, de vez em quando, partir à descoberta de um milímetro teu que tenha passado despercebido nas expedições passadas.
Mas o melhor, talvez seja, a casa constante que és, sempre de porta entreaberta para que eu possa entrar, és a personificação de um lugar e de um não-lugar, és a minha utopia palpável, o meu ponto de fuga. A palavra "permanência" ocupa também um espaço importante no nosso livro, é ela, que nos tem mostrado, o poder que têm dois corpos que permanecem, e o que eles podem produzir através da sua coexistência. E o que resulta, é todo este universo que fecundámos e que alimentamos diariamente, um universo que pretende ser, ainda que de forma ingénua, infinito.
(continuaremos a trabalhar de forma expontânea na expansão do dicionário.)
m.