20120316

no quarto escuro a mulher cega cai, no chão frio e sujo onde eu me deixei cair, entregando-me ao destino. Deixando-me entregar a uma caixa vazia, de modo a preenche-la com pêlos que não me deixaram atingir a sua pele. Até que o próprio tecto cai. No céu a lua de veludo espera pela sua morte. Depois o que vem é incerto, mas sei que termina com um barulhento blackout. Assim começa a viagem em que o balão voa, e eu suspiro de uma liberdade que nunca senti nos meus pulmões.
O homem primitivo avisou-nos que o céu apagar-se-ia. O cosmos ficaria à mostra. Cru como o meu coração se tornou ao ter visto todo o poder que está implantado no meu ser, seco e incompleto, como a verdadeira beleza deve ser. Todo o mar foi e sempre quis ser outro, mas teve de ser, segundo a sua forma original.
Os homens nunca esqueceram a mulher cega no quarto escuro.
A multidão assiste à transformação sentimental e psicológica até à total perda da ignorância, que antes fora, o fim.
(aplausos)




textodeimproviso.
(Bárbara Atanázio e Margarida Eloy)