20100925

Ali estava, mais um idoso perdido. Vagueava sem rumo por dentro, mas em frente, sempre em frente, como se desconhecesse a existência de outras direcções. Vinha com o olhar demasiado cheio, próprio das pessoas esvaziadas por dentro. Ladrava murmúrios, ladrava-os bem alto. Tinha o comportamento de um cão abandonado que chama repetidamente o nome do seu dono. Aproximava-se da linha do comboio, as pessoas na estação observavam-na como meros espectadores, como se a acção se estivesse a desenrolar numa televisão e ninguém tivesse contacto directo com ela. Eu, como membro inútil da multidão estava também imóvel, queria apenas entender o fim da narrativa. Até que entra em cena uma mulher com olhos doces, preocupada, que corria em direcção à idade perdida. Agarrou-a, sorriu e daí seguiu-se o abraço mais sincero que já tive o prazer de observar. O comboio chegou e despedi-me de todo aquele episódio, entrei, sentei-me e adormeci.

12:40h - 12:48h . 25 de Set, Estação de sete rios.